Armas, munições, amigos e experiências

Caçamos com muitos clientes e amigos ao longo do ano de 2016, tanto na África quanto em Portugal. Nessas caçadas nós tivemos lances de todos os tipos, belos erros, grandes acertos, caçadas muito longas e difíceis. Também outras com doses generosas de sorte e que por isso se resolveram em pouco tempo. De qualquer forma seria impossível colocar todos os lances de forma detalhada no espaço limitado deste livro. Vou tentar aqui resumir alguns lances interessantes que vivenciei, e também os nomes de alguns bons amigos com os quais eu tive o privilégio de caçar e aprender alguma coisa nessa minha primeira temporada como profissional na África e em Portugal.

Comecei a temporada de veados Ibéricos em 2016 com um tiro meu. Era início de setembro e nós estávamos conferindo um Bramar forte e insistente no topo de uma pequena colina na propriedade dos Tronqueirões. Na ocasião estávamos eu, o Manuel Vassalo e o Edgar cordeiro. Como estávamos sondando os campos para o início da temporada, queríamos saber se aquele animal que bramava tão perto da estrada era um veado grande.

Quando saímos do carro para checar a tal colina, o Vassalo me mandou levar o 30.06. O veado bramava insistentemente e não demoramos muito a encontrá-lo. Do pico de uma colina o avistamos no topo da outra elevação a uns 150 metros de distância. Era um veado adulto, de 10 pontas, bonito, mas nada de espetacular. O Vassalo então me perguntou se eu queria caça-lo… Pergunta boba aquela!

Depois de uma aproximação rápida, chegamos até um sobreiro grande que me ofereceu seu tronco em forma de forquilha como apoio para o rifle. Visando o animal apoiado no Sobreiro, esperei a melhor posição e peguei-o de lado, no meio do ombro. A 30.06 “falou” e ele caiu de pés juntos como se já estivesse morto antes mesmo de chegar ao solo. Usei munição americana, da marca Federal com pontas de 180 grains Power shok, trata-se de uma munição excelente e barata, ela é precisa, faz ótimos grupos até 200 metros e o projetil tem uma combinação de penetração e expansão muito boa. Como tínhamos várias caixas dessa munição, ela foi muito usada durante toda a temporada, e sempre com efeitos fatais.

Muitos clientes de outros países não traziam armas e acabavam por caçar com o bom e velho Verney Carrom calibre 30.06 do Manuel Vassalo. Trata-se de um rifle francês equipado com uma excelente mira Zeeis de 10X com muitos anos de uso e centenas de veados no currículo.

Na semana seguinte recebemos o sempre bem humorado e “piadista” José Gamito. Lembro-me que chegamos bem cedo ao campo e tivemos que esperar clarear, veados bramavam tanto e em tantas direções que tivemos até dificuldade para escolher que direção seguir. Naquela manhã fomos práticos, escolhemos os que bramavam mais perto. Mas a caçada se desenrolou e o que parecia que se resolveria rápido entrou manhã a adentro. Um vento meio inconstante nos atrapalhava demais, e os dois veados que conseguimos aproximação eram pequenos e ainda não mereciam ser caçados. Por fim já perto das nove da manhã localizamos em um vale um belo macho, andamos atrás dele com muito cuidado, pois a área estava repleta de fêmeas, e essas quando nos avistam emitem um espirro de alerta e fogem espantando todos os outros veados que estão na área.

Esse veado que avistamos estava excitado e patrulhava freneticamente o seu território em marcha rápida, bramando e disposto a brigar.  Como ele caminhava rápido nós não conseguíamos acompanhá-lo, no pequeno vale plano pastavam calmamente oito ou nove fêmeas que “pertenciam” a ele e elas acabaram ficando entre nós e o veado o que nos obrigava a seguir bem devagar. Achamos um bom esconderijo e demos um tempo ali. O vassalo sabia que as fêmeas dele estavam ali e como logo adiante bramava outro macho ele não iria deixa-las sozinhas. Entendemos que ele tinha ido apenas checar as suas fronteiras no topo da colina e logo voltaria para junto do harém.

Conhecer o comportamento do animal faz toda a diferença em uma caçada. Paramos bem escondidos em uma sombra e ficamos lá, de repente um outro veado vendo o grupo de fêmeas sozinhas no vale bramou forte a nossa esquerda. O território do dono das “moças” estava sendo invadido também pelo lado contrário. O bicho imediatamente fez meia volta lá no topo e voltou para acudir o outro lado. Veio correndo colina a baixo e nessa corrida imponente passou desfilando por nós a uns cem metros. Quando passava exatamente em nosso alinhamento com os olhos fixos no limite oposto do seu território, o mestre Vassalo fez com um som imitando um bramar curto, ele foi diminuindo a corrida até quase parar encoberto pela copa de uma arvore. O Zé Gamito que é um atirador de primeira e por incrível que pareça prefere disparar de mão solta a usar o apoio das varas, levou rapidamente a arma ao ombro e disparou em um só movimento.

O veado acusando o impacto em cima do ombro caiu rolou sobre o próprio dorso e se colocou de pé arrancando em nova corrida. Mas dessa vez apenas com três patas. Como ele desapareceu atrás das copas não conseguimos acompanhar a corrida. Mas estávamos tranquilos, tínhamos percebido que havia sido um ótimo tiro. Na ocasião o amigo português uso um belo e leve rifle alemão da marga Jaeger monótiro basculante em calibre 7X57R (versão com aro do 7mm Mauser) munição RWS expansiva de 162 grains. Aquele foi um belíssimo tiro instintivo. Consegui filmar bem esse disparo, e quem tiver curiosidade para ver a ação basta entrar no meu canal do Youtube “crishunt” e procurar pelo vídeo com nome de: “um tiro rápido”.

Poucos dias depois dessa caçada recebemos uma caçadora americana, a Karen Seginak, ela caça com arco e é uma ótima pessoa, grande caçadora, persistente, nunca desiste, passou conosco uma semana e caçamos todos os dias. Fizemos dezenas de aproximações a veados de todos os tamanhos. Devido a potência do seu arco, ela nos disse que precisava chegar a 25 metros de um veado e tê-lo em perfeita posição para conseguir um tiro mortal. Tentamos muito, e quando tínhamos distância não tínhamos boa posição e quando tínhamos boa posição não tínhamos distância de tiro. O mestre Manuel Vassalo usou todo o seu arsenal de conhecimento e malícia de anos de aproximação, e tivemos lances incríveis com veados maravilhosos muito perto, passávamos o dia rastejando atrás deles. No fim quem mais ganhou com essa grande caçada foi eu, era o inicio do meu aprendizado na arte da aproximação e tudo aquilo me serviu como uma faculdade prática de caçada de aproximação. Do controle do vento até a forma de pisar, da paciência a escolha do alvo… Foram lições completas que absorvi completamente.

Se estivéssemos com um rifle ou até uma espingarda calibre 12 teríamos tido dezenas de oportunidades de conseguir belos troféus. Ao fim de sete dias de caça a Karen teve que retornar aos EUA sem ter conseguido o seu troféu, mas muito foi satisfeita com a experiência adquirida e os momentos de pura emoção que vivemos, passamos muitas vezes por situações onde o “quase” foi real, por muito pouco e várias vezes estivemos perto de conseguir um tiro perfeito. Mas não foi dessa vez.

Fizemos uma bela caçada também com o nosso grande amigo português e Veterano de guerra, José Manuel Cardoso, que mesmo já não sendo mais um garoto, caminhou firme a manhã inteira com muita vontade e determinação atrás de um bom troféu de veado. Perdemos algumas oportunidades por falta de sorte e outras por puro descuido, mas no final da caçada já perto do meio dia e já voltando para o carro embaixo de um sol escaldante, aconteceu um lance magnífico que merece ser contado. Tínhamos deixado o carro no topo de uma colina e no fim da caçada frustrada chegamos a ele já muito cansados e com sede, bebíamos água e desarrumávamos a tralha para a viagem de volta quando bramou no vale a baixo um veado.

Perguntamos se ele queria tentar e mesmo exausto e transpirando muito ele disse que sim. Então iniciamos a descida para uma aproximação. Caminhamos abaixados e bem devagar até um ponto onde não se rompia mais, pois a nossa frente tinha uma mata entrelaçada de arbustos que seria impossível vencer sem sermos percebidos pelo veado que estava em um plano mais lato do outro lado de um córrego seco.

Ele estava de pé na sombra de uma arvore protegendo-se do forte calor. Não tínhamos mais como romper, então paramos a sombra e o Vassalo mediu a distancia. Da nossa posição até o veado havia 264 metros de “dificuldades”. O Manuel perguntou se ele conseguiria daquela distancia e ele respondeu apenas que iria atira, disse com tanta convicção que eu comecei a acreditar no tiro. Apoiou nas varas, bem ofegante e transpirando (todos estávamos assim) e iniciou uma cuidadosa visada. O veado estava de lado e já tinha nos visto, pois olhava atentamente para a nossa posição. Eu peguei a minha câmera e tentei filmar o disparo, devido a grande distancia demorei um pouco para estabilizar e encontrar o foco, mas por fim consegui. O tiro partiu e o veado saltou para frente desaparecendo do campo de visão. Pela pequena tela da câmera eu tive a nítida impressão de que havia sido um tiro errado, mas o Vassalo achava que não, de qualquer forma fomos até lá conferir.

Demoramos a chegar lá, e logo que cheguei vi sangue no capim, andei mais trinta metros e lá estava o veado tombado e já morto, havia sido um perfeito tiro de pulmão, o nosso amigo José Manuel ficou muito feliz e eu mais ainda, havia sido um tiro maravilhoso, pela dificuldade, pelas condições de esgotamento físico e principalmente pela distância. Aquele foi um dos tiros mais bonitos da temporada e eu tenho ele filmado no meu canal do Youtube, (crishunt) quem quiser dar uma olhada no vídeo, ele se chama “tiro de 264 metros”.

A arma usada pelo nosso amigo nessa caçada foi uma belíssima carabina C.G Haenel alemã em calibre 30.06, com munição também alemã RWS e projeteis Evolution de 183 grais que mesmo sendo expansivo, naquela distância, bateu de um lado e saiu do outro… Aquele é sem dúvida um projetil incrível, mas têm paredes muito grossas, e chumbo muito duro. Eu passei a temporada de caça aos veados inteira, tentando recuperar um só projetil daquele do corpo de um veado abatido, mas não consegui. Todos os clientes que dispararam em veados usando aquela munição, a ponta atravessou por completo, independente da distância ou calibre usado.

Na caça, o bom projetil é o que para na pele do lado oposto, ao fazer isso ele mostra que transmitiu toda a sua energia ao alvo e que ela não foi desperdiçada em um voo perigoso do projetil após o alvo. Para veados que não são animais tão rígidos, eu recomendo pontas mais “moles” mais expansíveis. Agora eu tenho absoluta certeza de que esse projetil Evolution da RWS seria perfeito para os grandes antílopes africanos que teimam em não cair. A sua ótima precisão aliada a uma penetração profunda e a uma expansão controlada é tudo que precisamos para conseguir abatê-los com segurança.

Dias depois fizemos uma ótima caçada com as “meninas” portuguesas. A minha querida amiga Ceú Vitorino e a Maria Neno. Veio também o caçador chefe da esquadra, o pai da Maria, o senhor José Neno, uma pessoa muito gentil, super educada e prestativa, e acima de tudo um homem de muita sorte, digo isso porque ele tem uma filha linda que também é apaixonada pela caça e o acompanha sempre.

Estivemos juntos em um ambiente ótimo, caçar com mulheres é diferente. Elas normalmente são caçadoras mais cuidadosas, ao caminhar, ao falar, ao disparar. Realmente prestam atenção nas instruções que damos e se esforçam para seguir a risca as nossas dicas e conselhos.

Cacei guiando com a Maria apenas um período, perseguimos um lendário e belíssimo veado que apelidamos de “pontas brancas”, mas ele era muito velho e esperto e nunca nos deu uma chance realmente boa. A Maria chegou a disparar sobre ele, um tiro longo e difícil montanha a baixo, mas falhou o tiro, coisas da caçada. Mesmo assim ela não desistiu e no dia seguinte caçando com o mestre Vassalo conseguiu um belíssimo troféu em mato fechado, nesse dia eu caçava com a Céu, e essa caçada rendeu um texto nesse livro “um tiro de baixo para cima”. Espero poder caçar com as duas muitas outras vezes, hoje elas são para mim mais do que clientes, são grandes amigas e certamente estaremos juntos em aventuras futuras.

No ano que passou também esteve conosco o meu grande amigo Brasileiro Miguel Delai, garoto de sorte, chegou no finzinho de setembro, depois de muitas caçadas e mesmo assim abateu o maior veado da temporada com um belíssimo tiro sem apoio, tendo o animal já correndo em fuga. Aquele sem dúvida foi um dos tiros mais bonitos da temporada, disparou usando o bom e velho Verney Carron 30.06 do mestre vassalo e a munição Federal de 180 grains. No dia seguinte o nosso queridíssimo amigo espanhol Nene Rodrigues a quem tanto devo agradecimentos por ter me dado apoio irrestrito na Espanha, nas provas para carteira de caçador guia espanhol, abateu outro belíssimo veado caçando com o Vassalo em uma manhã de pouca Brama, ele também usou o Verney Carron 30.06 do vassalo, com munição Federal de 180 grains.

Ainda nessa mesma semana, eu tive o privilégio de caçar e aprender um pouco mais com o amigo Nuno Romeiro, e em nossa caçada aconteceu algo interessante, da beira da estrada dele disparou em um belo veado na subida de uma colina pouco íngreme do outro lado, eu tinha os binóculos no veado e vi claramente o impacto na parte de trás do pescoço e junto com o tiro vimos o bicho desabar instantaneamente. Cumprimentei-o pelo belo tiro, juntei as varas de apoio e fomos até lá. Descemos a nossa encosta e subimos a ladeira do outro lado. Mas quando chegamos ao local onde o veado havia caído só encontramos pelos, as marcas dos cascos no chão e poucas gotas de sangue. O bicho simplesmente havia levantado e desaparecido!!

Buscamos o cão de sangue do mestre Vassalo e colocamos no rastro, andamos mais de uma hora atrás mas nunca mais vimos aquele veado!! O que deve ter acontecido foi que o projetil deve ter atingido o pescoço e cortado apenas os músculos, sem pegar osso, com o choque do impacto o animal caiu, mas aos poucos foi se recuperando e quando nos ouviu chegar falando em voz alta, levantou-se e correu sem que percebêssemos. Ficou a lição, quando disparar e ver cair, mantenha o animal sobre mira e observe por algum tempo se ele ainda tem algum tipo de  reação.

A arma usada pelo Nuno era um rifle Mossberg calibre 308 Winchester com munição recarregada por ele, usando pontas Sierra Matchking de 168 grais. Essas pontas são extremamente precisas, mas tem uma curiosidade, elas possuem paredes muito finas e uma ponta oca minúscula, já vi em caça, várias vezes, dois efeitos distintos causados por elas. Ou elas expandem explosivamente penetrando muito pouco e se fragmentando nos primeiros dez centímetros, ou elas passam direto sem expansão alguma como um projetil blindado devido à minúscula abertura na ponta. Por causa dessa inconstância essa não seria uma munição que eu recomendaria para caça e sim para torneios de tiro de precisão.

Na tarde do dia seguinte, caçando com o Nuno em um dia difícil de pouca brama e muito vento, já no fim da tarde, fomos checar uma lagoa onde os veados gostavam de beber e achamos um macho na medida que ele procurava, já quase escuro e depois de uma aproximação complicada em campo muito aberto, ele fez um belíssimo tiro longo fulminando esse macho do qual levamos a cabeça e os presuntos.

Algo bem parecido com o caso do Nuno me aconteceu apenas dois dias depois, caçando ao lado do meu querido amigo André Garan. Caçávamos um gamo na propriedade conhecida como “Tronqueirões” e andávamos na região montanhosa dos fundos da fazenda onde a poucos dias eu tinha visto um belo gamo quando caçava com a Céu Vitorino. Perdemos  uma oportunidade de tentar um tiro longo a esse  gamo enorme no clarear do dia, mas isso não nos incomodava, pois ainda tínhamos dois dias de caça pela frente. O André caçava com um belo rifle Blaser R8 em calibre 300 WSM equipado com uma ótima mira Leica.

Já tínhamos andado metade da manhã sem encontrar outro gamo, apenas fêmeas de veados nos vales entre as colinas. Até que no alto de uma colina eu bramei e um veado respondeu bem perto. Seguimos andando bem devagar pelo topo com um bom vento tentando localiza-lo. E como ele insistia bramando, não demorei a encontrá-lo. Ele estava no meio da descida deitado em uma moita sombreada. Só víamos as pontas das hastes e pela distância entre as duas extremidades, logo percebi que era um grande animal. O André queria um gamo, mas não resistiria a um animal tão belo como aquele veado. A distância até ele era de apenas 80 metros e não tinha como nos aproximar mais, pois corríamos o risco da sermos percebidos, os veados escutam demais e tem uma visão bem melhor do que a nossa.

Me posicionei atrás de um arbusto mais encorpado e abri as varas de tiro regulando a abertura das pernas para a altura do meu amigo André. O veado continuava deitado, e de vez em quando bramava forte. Tentei provocá-lo bramando igual para ver se ele levantava, mas não deu certo. Ficamos ali alguns minutos nesse impasse até que a sorte nos ajudou. Olhando pelo binóculo eu vi no vale atrás dele três fêmeas e um macho menor que vinham descendo a outra encosta.

Ele ainda não os tinha escutado, mas isso seria apenas uma questão de tempo.  Eu sabia que quando esse outro macho chegasse mais perto o “nosso” alvo iria se levantar e teríamos a nossa chance. O problema é que estávamos muito no topo em relação a ele, tínhamos que descer mais a encosta e ficar em uma posição mais paralela a dele. Como previsto, logo ele ouviu o pisar das fêmeas e do outro macho e virou completamente a cabeça para trás. Eu aproveitando essa distração, catei as varas e chamei o André. Descemos abaixados uns cinco metros e abri novamente as varas de tiro, quando terminamos de nos posicionar o veado se levantou. Estava de costas para nós e de olho no concorrente que caminhava invadindo o seu território. Dele eu via o lombo, o pescoço musculoso, e a cabeça enfeitada por belíssima galhada.

O André respirou profundamente e disparou. Vi sair um sopro de fumaça prateada do pescoço do grande macho que “submergiu” instantaneamente desaparecendo entre as moitas que o cercava. Lindo tiro, a curta distância e com um calibre potente, eu poderia apertar a mão do meu amigo, pois certamente já tínhamos um troféu abatido. Felizes e radiantes caminhamos na direção dele e tivemos uma surpresa enorme quando chegamos ao local e ele não estava lá!

Havia acontecido exatamente a mesma coisa que tinha se passado com o veado atirado pelo Nuno alguns dias antes. Mas dessa vez o terreno nos favorecia, por puro reflexo olhei para baixo e lá ia ele, já no vale plano, uns cem metros abaixo de nós andando rápido mas cambaleante, ainda atordoado pela pancada do calibre 300 no pescoço.

O André manobrou a arma em um segundo e fez mira sem apoio mesmo, me lembro de ter dito a ele para visar o meio das costas e o tiro partiu entrando exatamente onde eu queria. E o veado do “pescoço blindado” finalmente caiu fulminado.

Sem acreditar no que tinha acontecido fomos ate lá verificar o primeiro impacto. O que ocorreu é que a munição Winchester em calibre 300 WSM com projetil expansivo Power Point de 180 grains, viajava tão rápida devido a potência do calibre e a curta distancia do tiro, que literalmente explodiu no pescoço grosso do veado penetrando apenas alguns centímetros e não atingindo osso algum. Se alguém me contasse isso eu não acreditaria, mas vi e chequei a profundidade da penetração com o meu próprio dedo, cortei o local e o projetil não era nada mais do que minúsculos fragmentos de chumbo e metal amarelo. E a culpa não era do projetil que era mal construído, a culpa foi da super velocidade e de um alvo perto demais para aquele calibre. Na mesma temporada eu vi tiros de efeito perfeito e grande poder de morte com calibres menos rápidos como o 308 win e 270, usando essa mesma munição a distancias que variavam entre 150 e 250 metros.

Por fim, tiros no pescoço são tiros ingratos, quando atingem a cervical são imediatamente fatais, mas o pescoço é grosso e a coluna é fina, então nem sempre é fácil atingí-la. Por isso sempre prefira a área do coração e pulmão. No caso do André, devido a posição do animal, ele realmente não teve outra opção de colocação de tiro.

Dias depois, recebemos um grande amigo do Manuel Vassalo, caçamos um dia inteiro com ele, e ele teve sorte, pois os veados bramavam muito forte naquele dia. O homem não gostava muito de andar a pé pelo campo, então praticamente caçamos de carro. O Vassalo tinha me dito que esse senhor nunca teve muita intimidade com o tiro e vivia brigado com a arte da pontaria. Errar é normal, mas aquele caso em especial foi algo impressionante. Ele usou os três rifles que tínhamos no carro e praticamente esgotou a munição de todos eles, teve veado que ele deu seis tiros falhando todos. Passamos a tarde encontrando e falhando veados, em distâncias de 30 a 150 metros, até doze veados eu contei, depois desisti. No ultimo veado e já quase escuro, ele deu cinco tiros com o bicho subindo uma colina, o ultimo acertou, mas pegou pelos meios e o bicho fugiu baleado, me ocupando a manhã inteira do dia seguinte para encontrá-lo. Caçada é assim tem os muito bons, mas também tem os que tem pouca intimidade com a arma e vai ao mato mais para se ver livre do estresse da cidade grande do que realmente caçar alguma coisa.

Dias depois cacei com um português baixinho e de óculos, chamava-se Paulo, falava muito pouco e, mas era um tipo agradável e disposto às longas caminhadas. Na parte da manhã andamos muito e ele errou dois belos veados que tivemos muito trabalho na aproximação. Estava meio chateado, mas eu não o deixei esmorecer, e durante o almoço disse a ele que sairíamos sozinhos no período da tarde e conseguiríamos um belo troféu para ele.

Como prometido, logo após o almoço iniciamos a caminhada embaixo de um sol muito forte. Os veados estavam quietos, não bramavam, e eu procurava por eles embaixo da sombra de toda árvore que víamos. Andamos um bocado e com um pouco de sorte e persistência eu consegui localizar duas fêmeas e dois machos deitados e protegidos do calor nas sombras dos arbustos altos de uma encosta, quando estão assim, deitados a sombra e no meio do capim, eles ficam completamente camuflados e quase invisíveis e é preciso uma observação minuciosa para encontrá-los usando o binóculo. Andando de quatro pés conseguimos nos posicionar em meio a umas moitas de chara, ai nos sentamos a sombra ficamos observando eles.

O macho maior, vigiava duas fêmeas que estavam deitadas a frente dele e o outro macho menor rondava, tentando lhe tomar uma delas. Abri as varas de tiro mais curtas e posicionei o Paulo, ele iria atirar sentado e teria bastante tempo para caprichar, mas tínhamos que esperar o veado maior se levantar, atirar em bicho deitado à longa distância é complicado.

Ficamos ali uns trinta minutos no impasse, sentados escondidos em uma encosta e os veados deitados na outra. A distância era de 196 metros e o Paulo tinha em mãos um belíssimo rifle CZ em calibre 270 winchester, com munição winchester Power point de 130 grais. Dos calibres que eu vi em ação na última temporada, esse sem dúvida foi o que mais me impressionou. Quase não ter recuo e possuí uma trajetória super plana e regulado para 200 metros o tiro cai apenas poucos cêntimos a 250 metros… E apesar de ter pouco peso de ponta o projetil causa um dano incrível ao animal.

Um bom tempo depois, o veado menor que também estava deitado, mas fora do nosso campo de visão levantou-se, juntou coragem e caminhou em direção as fêmeas. Isso bastou para pôr de pé o grande veado que queríamos. Ele também se levantou, caminhou uns três metros e colocando-se de lado em relação a nossa posição , encarou o oponente menor que conservou a segurança da distância. Eu cochichei para o Paulo que aquela era a nossa oportunidade. Ele balançou positivamente a cabeça, ajeitou o óculos de lentes grossas e cochilou na pontaria. Quando eu achava que o tiro não viria mais o 270 falou alto do meu lado.

Lembro-me que o som do disparo ecoou bonito montanha a baixo e o veado saltou para cima e para frente, depois cambaleou trocando pernas e desceu tropeçando colina abaixo vindo sumir encoberto pelas copas  verdes  e altas das árvores que margeavam um pequeno riacho na parte plana no vale. Esperamos lá alguns minutos depois fomos até lá. Marquei bem o lugar do tiro e segui os paços da corrida dele, levamos poucos minutos para encontrá-lo, estava tombado de lado dentro de uma moita e tinha um perfeito tiro de pulmão. O Paulo ficou muito feliz, e até falou algumas palavras, para quem nunca dizia nada aquilo foi uma grande evolução, me parabenizou pela aproximação e pela estratégia e me agradeceu por ter tido paciência com ele dando a ele a tranquilidade e a confiança que precisava para conseguir um belo tiro. No fim nós tornamos bons amigos e ele disse que quer muito caçar comigo novamente. “-Pois caçaremos meu amigo, assim que eu voltar a trabalhar na Europa, caçaremos”.

Depois disso recebemos no nosso “hotel abandonado” que servia como acampamento base a presença de dois casais muito simpáticos de caçadores, o Rui Cunha e Rita Serpa, e o Ricardo Pereira, caçador experiente e a sua namorada Liliana… Comemos, bebemos conversamos muito e também caçamos! Eu não tive o privilégio de acompanhar nenhum dos casais na caça, pois guiava outras pessoas na mesma data, mas o Rui e a Rita fizeram uma bela caçada com o Vassalo e o Ricardo Pereira  que conhecia muito bem a região já tendo caçado lá por vários anos seguidos, caçava apenas com a namorada e ao final do terceiro dia conseguiu um lindo veado que ele perseguiu durante os três dias que lá esteve. Na única oportunidade de tiro que conseguiu ele não teve muita sorte, atingiu o veado meio atrasado e ele fugiu ferido.

Quando chegávamos ao carro com outros clientes já no final da caçada, ele nos ligou e pediu ajuda para procurar o animal. Então pegamos a camionete e fomos até a área que eles caçavam. Não os encontramos, pois os dois estavam no meio do mato e estavam em apuros, pois na tentativa de fazer pouco barulho na aproximação, havia deixado para trás os sapatos, mas a situação evoluiu, o veado não parava e eles acabaram por andar demais só de meias. No fim, ele tinham os pés cheios de espinhos, os sapatos perdidos e um veado baleado em fuga. Por pura sorte consegui encontrar os sapatos, e com mais um pouco de sorte e uma observação detalhada consegui também encontrar o enorme (medalha de prata) veado ferido no topo de uma colina e finalizá-lo com dois tiros de 150 metros. No final ficamos todos bem e satisfeitos, rimos muito da estória dos sapatos perdidos e tiramos belas fotos.

No finzinho da temporada e por ter conseguido excelente desempenho tive dois dias de folga e ganhei do patrão o direito de caçar o que quisesse. Lógico que eu fui atrás do “pontas brancas”. Por dois dias inteiros andei atrás dele em todos os pontos onde já o tínhamos avistado em ocasiões anteriores, mas sem sucesso, ele havia sumido e acredito de verdade que ele tenha fugido para a Espanha.

Nesses dois dias eu deixei de atirar em vários veados bons, pois queria ele. Infelizmente o nosso tempo na propriedade estava se acabando e tínhamos que voltar a Lisboa. Então na manhã do terceiro dia eu saí bem cedo e fui sozinho a parte montanhosa nos fundos da fazenda, ali caçando com o André Garan eu tinha visto um gamo belíssimo… Eu queria a cabeça dele no Brasil e fui atrás. Eu já conhecia a dinâmica do vento ali naqueles picos, de manhã corria em uma direção e quando o sol subia mudava totalmente viajando ao contrário nas últimas horas do dia. Subi nos topos e vim checando o vale, bem devagar. Caçar sozinho é muito bom, pois não temos outros pés para nos preocupar, os tempos de espera e observação podem ser maiores e você tem total liberdade para mudar a sua estratégia sem ter que explicar isso para ninguém.

No topo da Colina das Perdizes parei para observar e achei no alto da colina oposta cinco lindas fêmeas de gamo, naquela altura, no auge da época, cio do gamo, aquelas fêmeas certamente não estariam sozinhas, elas mereciam atenção. Passei ali longos minutos observando o grupo até que escutei do outro lado da encosta o “roncar” forte de um ágamo macho. Quem nunca ouviu imagina que é um porco. Em algum momento o macho teria que subir, então encontrei um galho baixo e mais grosso e  apoiei nele o rifle, depois medi a distância que deu 335 metros, longe mas eu estava confiante, sabia exatamente que desconto teria que dar no bom e velho Verney Carron para atingir a trajetória do projétil naquela distancia.

Poucos minutos depois vindo do lado oposto, subiu ao topo uma fêmea fugindo de alguma coisa, e atrás dela veio um macho horroroso. O animal era pequeno, parecia sofrer de algum tipo de nanismo e tinha apenas uma haste bem curta e muito pobre. Que falta de sorte a minha, passar ali esse tempo todo para me aparecer um animal tão ruim!! Eu só tinha até o meio dia, pois voltaríamos para Lisboa depois do almoço, era a última caçada da temporada, uma semana depois eu tinha marcado o meu voo de volta para o Brasil.

Saí para trás para não espantar as fêmeas nem o pequeno gamo que estava doido para “namorar” e continuei subindo a colina. De repente roncou muito forte lá atrás da encosta oposta novamente. Não poderia ser aquele pequeno e raquítico gamo a fazer aquele som belíssimo e tão imponente. Eu tinha que verificar aquilo. Andando  bem abaixado dei a volta lá em cima, no topo do espigão e desci o vale oposto, de onde vinha o som. Eu mal comecei a descer e vi no meio do vale estreito o movimento de algumas fêmeas. Parei me escondi melhor e comecei vasculhar com o binóculo. Logo achei uma, duas, três fêmeas e tomei o maior susto quando vi deitado entre elas a galhada enorme e bem espalmada de um lindo macho gamo macho.

Meu coração acelerou, as mãos transpiraram e o folego ficou curto. Era o gamo que eu tinha avistado de muito longe com o André dias antes, o danado naquele dia veio correndo e só parou por uns instantes, sumindo em seguida com seus saltos imponentes. Mas naquela manhã seria diferente, eu o tinha pego de surpresa e iria usar toda a minha experiência para caçá-lo. Eu estava em um tipo de funil onde as duas encostas se juntavam e seguiam se separando abrindo no meio o pequeno vale plano onde eles estavam, no topo a minha esquerda estavam as fêmeas atentas e o pequeno macho estranho, no vale a minha frente mais três fêmeas e o grande macho que havia roncado antes. Ele estava deitado entre elas e a distância que nos separava era de 188 metros, seria um tiro tranquilo, mas eu não havia levado as varas de tiro, se me deitasse para apoiar não os veria através da vegetação e  no braço solto com uma luneta de 10X seria um enorme desafio acertá-lo aquela distância. Eu tinha que descer mais e tentar avançar até os galhos grossos de um pequeno arvoredo vinte metros a baixo, ali que conseguiria apoio para o rifle e um bom ângulo de tiro.

Me arrastando como uma cobra em meios aos espinhos e ao capim de campo, comecei a descer. Eu não tinha rompido dez metros, quando parei para observá-los novamente. Sentei-me de vagar e achando uma brecha entre as moitas baixas olhei para eles e tomei um susto. O macho havia se levantado e estava junto com as três fêmeas olhando atentamente e farejando o ar em minha direção, nem a orelha eles mexiam. Eu não sei se me sentiram o se viram a movimentação dos arbustos mais altos que toquei ao me arrastar. O que sei é que eles estavam prestes a disparar, os gamos não são como os veados, eles são muito mais atentos e fogem ao mínimo sinal de algo diferente. E quando correm, não param mais, percorrem distâncias incríveis chegando a sumir no horizonte.

Eu não iria conseguir chegar ao arvoredo que queria, teria que tentar dali, um tiro de braço solto. Então respirei fundo, destravei a arma e me coloquei de joelhos, eles começaram a andar na direção da encosta, estavam realmente desconfiados. O macho ia por ultimo olhando para a minha direção enquanto arrebanhava as fêmeas. Encontrei-o na lente da mira Zeiss, mas era muito difícil controlar a emoção e estabilizar a mira com ele em movimento, meu reticulo (cruz da mira) dançava como um bailarino. Respirei fundo mais uma vez puxei a arma para o ombro com mais força e me concentrei o que pude, depois assoviei baixo e ele parou imediatamente, nesse momento eu disparei!

Quando terminei o arrasto do gatilho, eu percebi que o reticulo estava um pouco acima do lombo dele, tentei freia o dedo, mas a ordem dada pelo cérebro já tinha partido. O potente projetis calibre 30.06 levantou passou riscando o lombo dele e eu vi o sopro de uma pequena nuvem de poeira acima e atrás dele, com o tiro alto todos arrancaram como flechas disparadas de um arco potente.

Eu não tive sequer tempo de lamentar o meu erro, coloquei-me de pé manobrei o rifle e acompanhado com os olhos o deslocamento do gamo que subia a galope a colina, adiantei um pouco a mira em relação a ele e aproveitando uma brecha na vegetação disparei de novo. Dessa vez foi tudo meio que no automático e tudo muito rápido, pois eu não teria outra chance.

A reação do animal em fuga foi espetacular ao receber o impacto no pescoço ele literalmente capotou sobre o próprio corpo jogando as pernas para o ar, depois desceu rolando até parar escondido pelos arbustos. De punho cerrado eu dei lá sozinho um grito de vitória, emoção mais gostosa não existe! E onde está a plateia que deveria ter visto um tiro daquele? Era uma pena eu estar sozinho, aquilo filmado ficaria um espetáculo. Aquele foi realmente um tiro de muita “sorte” ou um tiro de gente grande, como gosta de falar um grande amigo que tenho.

Eu não levava máquina fotográfica, só o rifle, minha faca e um cantil com água, por sorte tinha  e o meu telefone e foi com ele que fiz algumas fotos do gamo, não consegui nenhuma que aparecesse eu e ele, como tinha que ser, mas ao menos consegui algumas belas imagens do animal para guardar. Aquela foi uma caçada maravilhosa eu tinha fechado com chave de ouro a temporada. Abri o primeiro dia de caça com um bonito veado e fechei o último dia com um lindíssimo Gamo.

Ainda caçamos com vários outros clientes e peço desculpas por deixar alguns deles de fora do livro, muitos foram guiados pelo amigo Edgar Cordeiro e por causa da correria de caçadas em propriedades diferentes e dos desencontros durante as caçadas, eu não consegui conhecê-los tão bem como queria, por causa do pouco contato, de alguns, sequer me lembro do nome. Mencionei por tanto no livro os mais próximos, os que acompanhei e fiz sólida amizade e os que guiei sozinho.

Termino esse livro em março de 2017 cheio de vontade de voltar a “trabalhar” como guia de caça novamente, as coisas nesse começo de ano correram muito bem e temos tantos clientes para caçar na África em 2017, que ocupamos praticamente todas as nossas semanas de junho a dezembro. Por causa disso, não faremos a deliciosa temporada de gamos e veados ibéricos na Europa, pois as duas temporadas acontecem na mesma época e caçar na África é sem duvida mais lucrativo para nós.

A temporada desse ano será fantástica, em junho e julho eu irei atrás da grande diversidade de antílopes da África do sul, depois em agosto e setembro estaremos no vale do rio Zambeze em Moçambique, atrás dos grandes crocodilos , hipopótamos, búfalos e waterbuks, e em outubro e novembro  finalizaremos a temporada atrás de leopardos e uma linda palanca negra ao sul da reserva do Niassa no norte de Moçambique. Como podem ver o ano promete, terei muito trabalho pela frente, mas certamente ao fim da próxima temporada terei muito mais experiência como caçador profissional e material de sobra com centenas de fotos para escrever outro bom livro no início de 2018. A todos os meus amigos que tanto apoiam e acompanham as minhas andanças mundo a fora, deixo um grande abraço e espero de verdade, um dia, poder caçar com cada um de vocês.

Tino.

243 comentários em “Armas, munições, amigos e experiências”

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